
O Pato
A história diz que, certo dia, uma galinha, incomodada com o barulho de um pato que insistia em caminhar, nadar e ainda levantar voo quando bem queria, espalhou pela granja um ditado falso: “pato, querendo fazer tudo, não anda direito, não voa direito e nem nada direito”. Foi a forma que encontrou de diminuir aquilo que ela mesma não conseguia fazer.
Mas o pato, sem dar bola para fofoca e sabendo que não tinha o mesmo destino da galinha, continuou migrando pelos continentes… deslizando sobre a água, mergulhando… e caminhando com a naturalidade de quem não precisa provar nada para ninguém. Inclusive um primo dele, o ganso, se arriscava a trabalhar como segurança…
No fundo, o ditado verdadeiro — que tantos insistem em cortar pela metade para distorcer a narrativa — sempre foi outro: “Jack of all trades, master of none, but oftentimes better than a master of one.” (O faz-tudo é mestre de nada, mas frequentemente melhor que aquele que só sabe fazer uma única coisa.)
Não precisamos ser impressionantes como um pato; basta reconhecer que existe uma alegria extensa em fazer várias coisas diferentes — nem sempre profundas, nem sempre dignas de um “like”, mas que acabam nos fazendo bem. A vida, como diz um ditado chinês, é diluída: feita de pequenos gestos, interesses e tentativas. Não precisa ser grandiosa. Basta funcionar, trazer paz e manter a gente em movimento. O imaturo quer emoções insanas o tempo todo; a experiência mostra que a vida é muito mais do que isso.
O que aprendi como arquiteto, mesmo sem nunca ter aderido mas sempre observado, é que os pedantes acadêmicos buscam apenas obras e discursos gloriosos, mas nunca levantaram um único pilar — nem mesmo uma casa de Cohab. A vida real é mais simples, porém muito mais difícil, do que o teatro conceitual de quem vive de pose, apoiado por adolescentes ingênuos.
No dia a dia de obra existe mais verdade do que em qualquer discurso “intelectual profundo”. Para mim, e para tantos outros, nunca faltou capacidade para seguir as modinhas hypadas; só faltou motivo e vontade — algo que só existiu quando eu era jovem, inseguro e andava com as companhias erradas.


